Do que falamos quando falamos de prêmios

Com o lançamento do novo livro do seu restaurante, o Eleven Madison Park (eleito o melhor do mundo pela lista do 50 Best), o chef nova-iorquino Daniel Humm chamou atenção pela sinceridade com que explica como o EMP (como o restaurante é carinhosamente chamado por seus habitués) ganhou suas quatro estrelas do The New York Times, a cotação máxima do jornal mais influente dos Estados Unidos. E, mais do que isso, como isso se tornou uma das mais importantes conquistas de sua carreira.

Ele, que vinha de San Francisco para pilotar um restaurante na mais concorrida cidade gastronômica do mundo (a convite do grande Danny Meyer), tinha mesmo que comemorar. “Naquela noite, amigos de toda a cidade se juntaram a nós no restaurante para celebrar. Champagne começou a fluir nas taças; estava se tornando uma verdadeira festa”, escreve ele, nas páginas do recém-lançado Eleven Madison Park: The Next Chapter. “Então, em um movimento rápido, Daniel [Bouloud] pegou duas garrafas de champanhe, me levou pela mão, e nós paramos em frente ao bar, olhando para a multidão. Naquela noite, Daniel me ensinou a dar banho de Champanhe”, ele diz.

Premiações e conquistas assim são capazes de alterar o rumo de um restaurante – no caso do EMP, os números não andavam bem, algo que a cotação dada pelo crítico Frank Bruni tratou de mudar. Mais do que isso, são poderosas injeções de ânimo em suas equipes, que também conseguem entender nelas o reconhecimento para seu árduo trabalho.

Prêmios são sempre muito bem-vindos e muito celebrados quando vêm. Mas o cenário gastronômico – no mundo e também no Brasil – passou a dar muito valor para eles, para além do sentido de reconhecimento que eles deveriam ter. A gastronomia passou a ser também uma parede ostentando conquistas e selos. Claro que adoramos todos eles, claro que comemoramos – e muito – cada vez que eles chegam (até para serem colocados na parede, sim, como uma consideração do nosso trabalho). Nossas casas, ainda bem, amealharam alguns órimos prêmios no decorrer dos anos, um orgulho enorme pra gente e pras equipes. De melhor bar do mundo, de pizza tradicional, de melhor lugar para tomar chopp, etc, etc.

Mas acreditamos que os prêmios não podem significar algo maior do que aquilo que devem ser: um reconhecimento. O trabalho, mesmo, nós fazemos para o cliente, que é quem frequenta nossas casas, que prestigia e que permite toda a engrenagem funcionar – e quem paga a conta no final da experiência, que nós torcemos muito para que se repita. Um prêmio é o gosto da conquista, o banho de Champagne depois de umas voltas difíceis na pista, mas nunca um destino. O maior destino, quando falamos em restaurantes e bares, é nunca chegar. Estar no pódio é uma alegria, claro que é. Mas estar ali nunca pode tirar o nosso foco de seguir correndo e fazendo as melhores curvas que podemos.

Raquel Geisler